UM CRÍTICO QUE TAMBÉM FOI POETA

 

Stélio Furlan - UFSC

 

O encanto numeroso da leitura está

mais no prisma do que no objeto

 Augusto Meyer, 1935

 

“Um crítico que também foi poeta”, é como se define Machado de Assis num de seus ensaios críticos. O ensaísmo crítico machadiano trata não só do literário, mas também de terras e gentes - é o que se desprende da conhecida solicitação que faz ao escritor, que se torne “homem do seu tempo e do seu país”. Na crítica machadiana encontramos um modus de leitura que se nutre de influxos de origem diversa. Em 1860, Machado de Assis escreve em tom confessional:

 

As minhas opiniões sobre o teatro são ecléticas em absoluto. Não subscrevo, em sua totalidade, as máximas da escola realista, nem aceito, em toda a sua plenitude, a escola das abstrações românticas; admito e aplaudo o drama como forma absoluta do teatro, mas nem por isso condeno as cenas admiráveis de Corneille e Racine. Tiro de cada coisa uma parte, e faço o meu ideal de arte, que abraço e defendo.[1]

 

Nessa passagem, a medula de nossas inquietações. Se isso indica a maneira pela qual formula um “programa”, destinado à análise do teatro e da literatura dramática, o mesmo se pode dizer, por extensão, da maneira pela qual gesta o seu ideário crítico.

Num certo sentido, este procedimento de leitura evoca o que se convencionou chamar de collage: para nosso uso,entenda-se uma operação discursiva que busca a produção de sentido por meio de recortes diversos. Para além de um mero “mosaico de citações”, o inteligível que o crítico Machado de Assis constrói se identifica no fazer de um “ideal de arte”, que abraça e defende. É como se este sentido específico do collage (que se abre a várias articulações) codificasse a própria crítica machadiana... uma maneira de armar, de dobrar e desdobrar, capaz de produzir percepções, visibilidades: ao contribuir para a instauração e sustentação de valores ou signos de distinção, a crítica se coloca em íntima eqüidistância da noção de cultura como processo de enunciação (do) cultural, tornando-o inteligível.

A nosso ver, nessas opiniões “ecléticas em absoluto”, nessa maneira de solicitar de “cada coisa uma parte”, as remissões a outros textos trabalham menos no sentido negativo do pastiche, do que de reescritura: ele se distancia do que critica em Valentim Magalhães: “As idéias dele são geralmente de empréstimo; e o poeta não as realça por um meio de ver próprio e novo”, e se aproxima de Álvares de Azevedo: “ele não sacrificou o caráter pessoal da sua musa, e sabia fazer próprios os elementos que ia buscar aos climas estranhos”[2], escreve Machado.

Não se trata, pois, de evitar o empréstimo de certas idéias, o que, aliás, é uma constante em Machado. E a fortuna crítica machadiana não cessa de nomear suas fontes e influências”.[3] Contudo, ele acrescenta que a todo empréstimo deve-se adicionar “a nota pessoal” do escritor: “Pode ir buscar a especiaria alheia, mas há de ser para temperá-la com o molho de sua fábrica”, escreve. Capaz de plutonizar o dado, Machado colhe influxos vários, reelaborando-os noutras variações, ou seja, efetua mais uma recomposição do que uma transposição literal em suas leituras. Ora, a remissão a outros textos trabalha como um componente decisivo das condições da própria elaboração textual. Ou melhor dizendo, nenhum discurso (pretenda-se ele crítico ou literário) se engendra numa casual solitude, mas se formula assumindo uma posição em relação ao “já-dito”, se se quiser, ao “já-escrito”.

A crítica machadiana, ainda que tenha se embebido meticulosamente da obra dos predecessores,[4] é rio que funda seu próprio curso na crítica literária brasileira. Isso pode explicar a exclusão de Machado de Assis no esquema da crítica nacional de Alceu Amoroso Lima. Parece-nos que tal exclusão se deve, justamente, à impossibilidade de vesti-lo plenamente com os atributos da crítica romântica, naturalista ou moderna (impressionista, humanista, formalista), embora traga elementos de diálogo com estas. Demais, no esquema proposto por Wilson Martins, publicado em A Crítica Literária no Brasil, a crítica machadiana é limitada à linhagem estética (formalista). José Aderaldo Castello, de modo diverso, prefere, como qualidade predominante da crítica machadiana, “o impressionismo, mas impressionismo orientado pelo bom gosto, coerência, justeza, considerável leitura”; enquanto que na cena contemporânea encontramos a tendência de entendê-la como “crítica dialética”.[5]            É isso o que nos instiga em Machado: enigma de um rio sem margens.

Se, no que diz respeito à produção romanesca, Machado resiste às classificações, isso também caracteriza os primeiros ensaios de crítica literária, nos quais confessava a incorporação de elementos de diferentes pontos de vista, o que torna problemática sua inserção numa tipologia estanque. Daí que, em meio ao vasto rumor discursivo, oriundo das lutas de definição a propósito do autor Machado de Assis, resta-nos pensá-lo pelo prisma... da atopia. Machado seria atópico no sentido de que torna problemático todo atributo, toda leitura que se pretenda definitiva; por conseguinte, abala a noção de um locus determinado a favor de um (entre)lugar, se se quiser, um modus que o suspende acima do tipicizável.

E toda atopia nutre a idéia de enigma: na linhagem gramatológica, entenda-se, o que nunca se apresenta ou revela em sua plenitude, embora deixe marcas, traços que podem de algum modo apontar os percursos e os diálogos em questão. É bem certo que Machado não descura, nos seus ensaios inaugurais, de certos elementos da crítica romântica. Caso do “irrepresentável”, segundo este código estético; caso do epigráfico “sentido íntimo” (1865), que se desdobra em “sentimento íntimo”(1872); caso da tematização do deslocamento do “instinto” para a “consciência” de nacionalidade, alimentada pelo “desejo de uma literatura mais independente”. Tal é o aspecto comumente privilegiado quando se trata da crítica machadiana. Mas não se pode reduzi-la a tal, sob pena de asfixiar a complexidade de sua crítica, uma vez que nela há uma maneira de olhar para o “nacional” que não passa pela redenção de uma identidade: ao pensar as condições de possibilidade da própria crítica, Machado a suplementa para além da cor local.

Um tratamento similar recebe a questão da moral e da relação desta com a arte: em vez de primar por uma crítica “moralista”, comum em seu tempo, Machado sugere que a discussão literária cultive “o mérito puramente literário, no pensamento criador, na construção cênica, no desenho dos caracteres, na disposição das figuras, no jogo da língua”(1872): está claro que tais elementos aproximam a crítica machadiana da crítica estética. Aliás, como diz: “a crítica não aprecia o caráter de tais ou tais indivíduos, mas sim, o caráter das personagens pintadas pelo poeta, e discute menos os sentimentos das pessoas que a habilidade do escritor”(1866).

Entretanto, em vez de minimizar a crítica à linhagem estética ou à “censura gramatical”, Machado não só acrescenta-lhe um cunho propedêutico - “uma mira única, a educação” - como também reivindica a participação do literato nos “movimentos da sociedade de que faz parte”. Não se trata, portanto, de reduzir a crítica a certos âmbitos separados das urgências da vida prática: o aspecto propedêutico (em defesa da civilidade, da urbanidade, da tolerância...) impede uma estetização completa.[6] Acrescente-se que, de maneira geral, Machado se afasta da "crítica impressionista", já que esse tipo de crítica permanece fiel à impressão sensível, emocional. Aliás, em “O Ideal do Crítico”, ele mesmo problematiza “a simples reprodução das impressões de um momento”[7]. Dito de outro modo, Machado aponta para uma lógica que se pode nomear, nas próprias palavras, de um “consórcio de elementos diversos”[8], condição de possibilidade dessa crítica, que chamamos híbrida.

Isso é um recurso operatório que se presentifica de modo diverso na sua vasta produção literária. Leia-se em Quincas Borba, “misturou idéias próprias e alheias”, “em muitas idéias colhidas aqui e ali”. A propósito do monólogo interior de Brás Cubas, diz o narrador de Memórias Póstumas:

 

Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição. Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo(cap.XXXIV).

 

Trata-se de uma visão decorrente da possibilidade de “migração do olhar”: ciente desse “pandemônio” de vozes, de idéias fora e no lugar, resta-lhe reivindicar o não estabelecimento “de doutrinas tão absolutas que a empobreçam”: se assim pensa a questão da nacionalidade, não é menos certo dizer que isso também se aplica ao seu ideal de crítica. Mais de uma vez Machado escreve que o sectarismo, o “dogmatismo”, são atitudes impróprias ao ideal do crítico. Como diz na análise dos novos talentos, em 1879: “o erro talvez da geração nova será querer modelar-se por um só padrão”; o que nos parece menos uma eterna fuga a uma tomada de posição, mas a adoção de uma postura: toma a crítica como forma de resistência, forma de não “cede[r] a tendência comum”[9], isto é, aos modismos de então, sejam eles culinários ou estéticos.

O enigma do olhar machadiano repousa não na mera justaposição sincrética, mas num “olhar multiperspectivado”.[10] A rigor, não se pode falar de “um vale-tudo estético”, pura volubilidade de um crítico que se dispersa. Desse perigo ele mesmo está consciente, uma vez que contrapõe a coerência à inconstância:

 

Sem uma coerência perfeita, as suas sentenças perdem todo o vislumbre de autoridade, e abatendo-se à condição de ventoinha, movida ao sopro de todos os interesses e de todos os caprichos, o crítico fica sendo unicamente o oráculo de seus aduladores. (p.799)

 

Dessa “condição de ventoinha” se afasta Machado, uma vez que, como vimos, suas asserções dependem de um “programa” (crônica), ou de um “ideal” (crítica), o que sugere um “projeto literário”, no sentido de ampliar os conhecimentos do leitor, instigando-lhe sua capacidade de crítica do vivido. Daí a “missão da arte” - “caminhar na vanguarda do povo como uma preceptora”, e da crítica - “que a crítica seja mestra”. Assim, este programa e este ideal não só conduzem os passos do cronista e do crítico como também antecipam e permeiam o “fazer literário”.

Em vez de buscar definir de uma vez por todas o “lugar” de Machado, preferimos tentar apreciá-lo de que plural ele é feito.[11] Se o encanto numeroso da leitura está mais no prisma do que no objeto, talvez se possa dizer que o collage crítico, a releitura do ecletismo, o trânsito por diferentes tendências estético-literárias são possibilidades de leitura que nos remetem à solução estética da hibridação, como recurso operatório privilegiado na crítica machadiana.

Os chamados “processos de hibridação” circulam como a nova atração do mundo da crítica contemporânea,como ocorre em Silviano Santiago, Néstor Garcia Canclini e Homi Bhabha) não sendo, contudo, uma invenção destes. Embora diferindo mais pelos seus contextos de análise, do que pelos efeitos que produzem - Silviano Santiago e o “entre-lugar” do discurso crítico latino-americano; Homi Bhabha e o “entre-tempo” de certa “condição fronteiriça”; Canclini e as “combinações múltiplas entre tradição, modernidade e pós-modernidade” - são críticos que positivam o hibridismo como valor, melhor, como estratégia discursiva indispensável às escrituras da diferença.

No conhecido ensaio “O entre-lugar do discurso crítico latino-americano”,[12] Silviano solicita uma leitura do “elemento híbrido” como o que leva à “destruição sistemática dos conceitos de unidade e da pureza”: a hibridez denuncia o “peso esmagador”, o “sinal de superioridade cultural” destes conceitos. Tal como ocorre em Bhahba, desestabiliza-se a perspectivação etnocêntrica, pela valoração da hibridação como estratégia de luta pelo reconhecimento da diferença e de suas escrituras.

Homi Bhabha, em O Local da Cultura, também sublinha o potencial crítico da hibridação (cultural e estética). O hibridismo abre possibilidades de tradução: “ato insurgente de tradução cultural”.[13] Mas esse espaço de tradução, de articulação ou de negociação, implica num ultrapassamento das bases de oposição dadas, dos binarismos centro/periferia, senhor/escravo, hegemônico/subalterno: o híbrido, ao acolher as diferenças sem uma hierarquia suposta ou imposta, “destrói a simetria e a dualidade dos pares eu/outro, dentro/fora. Nisso reside o poder de transformação do hibridismo, à medida que instala um questionamento das imagens e presenças de autoridade do poder colonial, permitindo que outros “saberes “negados” se infiltrem no discurso dominante e tornem estranha a base de sua autoridade”.[14]

Aqui, o híbrido não se lê como anômalo, deformação, mas como o que “expõe a deformação e o deslocamento inerentes a todos os espaços de discriminação e dominação”.[15] Noutras palavras, Bhabha aposta numa leitura do híbrido como “signo de produtividade”, sublinhando sua capacidade de desestabilização, de intervenção, de deslocação, de pressão e de presença, em defesa da negociação, articulação, iterabilidade e/ou alteridade. Se Bhabha, defende a “lógica do não-um”, a lógica da diferença, em vez de uma simples celebração da diversidade, do sincretismo, o mesmo se pode dizer de Néstor Garcia Canclini. Em Culturas Híbridas, a vitalidade crítica do hibridismo se revela no questionamento de discursos autoritários. Embora inclua também sincretismo e mestiçagem nos “processos de hibridação”, diz preferir

 

este último porque abrange diversas mesclas interculturais – não apenas as raciais, às quais costuma limitar-se o termo “mestiçagem” – e porque permite incluir as formas modernas de hibridação melhor do que “sincretismo”, fórmula que se refere quase sempre a fusões religiosas ou de movimentos simbólicos tradicionais.[16]

 

Pelo conceito de “hibridação intercultural”, Canclini problematiza a oposição hegemônico/subalterno, questionando as formas etnocêntricas de modernidade cultural. Aqui, investir no híbrido implica numa aposta nas interações, nas coexistências, nas combinações, mais particularmente, nos “cruzamentos entre o culto e o popular”, tomados como construções culturais, formas de organização do simbólico.[17]

Tais perspectivas (co)incidem, pois, numa noção de híbrido como valor crítico, cujo atributo por excelência estaria na sua capacidade de articulação entre instâncias contraditórias e antagônicas.[18] E isso é de suma importância para o prisma deste ensaio, uma vez que alude à articulação machadiana do sério e o cômico. O que nos coloca ao pé de O Calundu e a Panacéia. A sátira menipéia e a tradição luciânica, de Enylton de Sá Rego. Neste trabalho, o autor analisa os romances da chamada “segunda fase” machadiana como reescrituras híbridas de importantes gêneros da tradição literária ocidental: o épico, o cômico e o trágico”.[19] Fica como elemento definidor da “tradição luciânica”, a “união de um gênero “elevado” – o discurso filosófico – e um gênero “inferior” – a comédia popular”,[20] numa palavra, a “mistura de gêneros, tons, estilos”[21]. O hibridismo surge aqui como uma estratégia discursiva que rompe com “as convenções que regulavam os gêneros tradicionais”, isto é, que “serve na superação das formas literárias estabelecidas”.[22]

Nesse sentido, talvez se possa dizer que é na afirmação das “opiniões ecléticas em absoluto” que o crítico Machado de Assis entreabre a possibilidade de um cotejo com a prática da hibridez. Se, para Enylton de Sá Rego, nos romances da “segunda fase” Machado supera as formas literárias estabelecidas (o romantismo, o realismo) pela hibridação de um gênero “alto” (o do romance) com um gênero “baixo” (o do folhetim) a nosso ver, tal capacidade de articular elementos antagônicos e contraditórios é, justamente, o que aflora na crítica machadiana: “de cada coisa uma parte...”.

Em suma, encontramos em Machado de Assis menos um eclético que se dispersa do que um escritor que soube recolher e sintetizar elementos vários e válidos para a formulação de um olhar criterioso e atento, que, ao romper com perspectivismos monológicos, deu visibilidade à crítica da literatura e da cultura brasileira. O que se pode focalizar, não na reserva em face das utopias do seu tempo, mas na maneira contrapontística de investigar e aprender com as diversas vertentes então em voga.[23] Nessa assimilação e desassimilação dos conteúdos que lhe eram contemporâneos (ou não); nessa deglutição do heterogêneo, nessa absorção e rejeição criteriosa, enfim, nessa inovação pela recriação, temos alguns aspectos que contribuem para a sua singularidade, se se quiser, sua “atualidade”.[24]

 

Referências Bibliográficas:

 

MACHADO DE ASSIS. Obra Completa. 3 vols, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Obras Completas de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Jackson, vols. 22-25, 1962.

BARTHES, Roland. Crítica e Verdade. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, 1999.

BOSI, Alfredo. O Enigma do Olhar. São Paulo: Ática, 1999.

CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970.

CASTELLO, José Aderaldo (org.) Machado de Assis. Crítica. Rio de Janeiro: Agir, 1963.

DERRIDA, Jacques. A Escritura e a Diferença. São Paulo: Perspectiva, 1972.

____. Gramatologia.Trad. Miriam Schnaiderman e Renato Janine Ribeiro. SP: Perspectiva, Edusp, 1973.

LIMA, Alceu Amoroso. A Estética Literária e o Crítico. Rio de Janeiro: Agir, 1954.

MARTINS, Wilson. A Crítica Literária no Brasil. Vol. I e II, Rio de Janeiro J: Francisco Alves, 1983.

MORICONI, Italo. “Sublime da Estética: Corpo da Cultura”. In Declínio da Arte Ascensão da Cultura. Florianópolis: Letras Contemporâneas/Abralic, 1998

REGO, Enylton José de Sá. O Calundu e a Panacéia: Machado de Assis, a sátira menipéia e a tradição luciânica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.

SANTIAGO, Silviano. Uma Literatura nos Trópicos. Ensaios sobre dependência cultural. São Paulo: Perspectiva, 1978.

VIEIRA, Nelson H.“Hibridismo e Alteridade: Estratégias para repensar a história literária”. In: Cadernos do Centro de Pesquisas Literárias da PUCRS, vol. 4, n°2, 1998.



[1] MACHADO DE ASSIS. Obra Completa. Nova Aguilar, p.837.

[2] Id.,p.825 e p.858, respectivamente.

[3] Dentre as quais se mencionam Menipo de Gadara, Luciano de Samosata, Homero, Virgílio, O Eclesiastes, Ossian, Maquiavel, Erasmo, Pascal, La Rochefoucauld, Vauvernargues, Lamartine, Leopardi, Sterne, De Maistre, Chateaubriand, Dostoiévski, Schopenhauer, Victor Hugo, Manuel Antônio de Almeida, José de Alencar...

[4] Para Antonio Candido o “mestre admirável”, Machado de Assis, “se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores. A sua linha evolutiva mostra o escritor altamente consciente, que compreendeu o que havia de certo, de definitivo, na orientação de Macedo para a descrição de costumes, no realismo colorido e sadio de Manuel Antônio, na vocação analítica de José de Alencar. Ele pressupõe a existência dos predecessores, e esta é uma das razões da sua grandeza: numa literatura em que, a cada geração, os melhores recomeçam da capo e só os medíocres continuam o passado, ele aplicou o seu gênio em assimilar, aprofundar, fecundar o legado positivo das experiências anteriores. Este é o segredo da sua independência em relação aos contemporâneos europeus, do seu alheamento às modas literárias de Portugal e França. Esta, a razão de não terem muitos críticos sabido onde classificá-lo”. CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira, 1971.

[5] Ver LIMA, Alceu Amoroso. A Crítica Literária no Brasil, apud VERDI, Eunaldo, Graciliano Ramos e a Crítica Literária, 1989, p. 38-39. Ver também MARTINS, Wilson. A Crítica Literária no Brasil. 1983. Sobre o “impressionismo” machadiano, ver: CASTELLO, José Aderaldo. 1963, p.9. Ver também O Enigma do Olhar, de Alfredo Bosi, que sublinha, em Machado, a “capacidade dialética de negar a negação (...) que abre e areja por dentro as certezas compactas do determinismo social”(p.159).

[6] Nisso está mais para Victor Hugo do que para Victor Cousin, ao qual se atribui a célebre expressão “arte pela arte”(1818). É o próprio Machado que, em tom confessional, escreve: “eu tomo a arte pela arte, mas a arte como a toma Hugo, missão social, missão nacional e missão humana”(1859).

[7] “(...)se o crítico, na manifestação dos seus juízos, deixa-se impressionar por circunstâncias estranhas às questões literárias, há de cair freqüentemente na contradição, e os seus juízos de hoje serão a condenação das suas apreciações de ontem(Machado de Assis. Obra Completa, p.799)

[8]Machado de Assis. Obra Completa, p. 894.Na esteira gramatológica se pode dizer que toda escritura traz suas marcas, traços, mas não se reduz a estes. Toda escritura está perpassada por outras escrituras, o signo por outros signos. A escritura se apresenta como um amalgamar de camadas textuais, que podem ser enxertadas umas nas outras, daí resultando, neste movimento de substituição de conteúdos, um tecido textual outro. É como se, em Machado, o ato de escrever implicasse em enxertar, melhor, modular: moldar de maneira contínua e variável.

[9] Machado de Assis. Obra Completa, p. 825 e p. 901.

[10] Nas palavras de Alfredo Bosi, o olhar machadiano “sonda e perscruta”: “o olho que só reflete é espelho, mas o olhar que sonda e perscruta é foco de luz. O olhar não decalca passivamente, mas escolhe, recorta e julga as figuras da cena social mediante critérios que são culturais e morais, saturados, portanto de memória e pensamento”. BOSI, Alfredo. O Enigma do Olhar, p.199.

[11] “Cada época pode acreditar, com efeito, que detém o sentido canônico da obra, mas basta alargar um pouco a história para transformar esse sentido singular em sentido plural e a obra fechada em obra aberta. A própria definição da obra muda: ela não é mais um fato histórico, ela se torna um fato antropológico, já que nenhuma história a esgota. A variedade dos sentidos não depende pois de uma visão relativista dos costumes humanos; ela designa, não uma inclinação da sociedade para o erro, mas uma disposição da obra à abertura; a obra detém ao mesmo tempo vários sentidos, por estrutura e não por enfermidade dos que a lêem. É nisso que ela é simbólica: o símbolo não é a imagem, é a própria pluralidade dos sentidos”. BARTHES, Roland. Crítica e Verdade , pp.212-213.

[12] SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos Trópicos, p. 18.

[13] BHABHA, Homi K. O Local da Cultura, p.27.

[14] Id, p. 29 e p.165 Nesse sentido, o hibridismo, ao recusar toda “referência da discriminação”, descortina “os efeitos discriminatórios do discurso do colonialismo cultural” e destitui os saberes da autoridade cultural de sua presença plena.

[15] Ib., p.162

[16] CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas Híbridas. Estratégias para entrar e sair da modernidade, p.19.

[17] Id., p.346.

[18] Isso está de acordo com Bakhtin, em A Imaginação Dialógica, para o qual a hibridação se lê como “presença simultânea de duas consciências igualmente representadas, e pertencentes a diferentes pontos de vista, colocados dialogicamente um contra o outro”, Apud. VIEIRA, Nelson H.“Hibridismo e Alteridade: Estratégias para repensar a história literária”, pp.10-11.

[19] SÁ REGO, Enylton de Sá. O Calundu e a Panacéia. A sátira menipéia e a tradição luciânica, p.4.

[20] Id., p.47.

[21] E acrescenta o “uso sistemático da paródia”, ou que tal uso “está na origem da produção de textos “híbridos”, que colocam lado a lado passagens em prosa e verso” (Ib., p.56). Em nossa opinião, isso define não só romances da “fase madura”, como quer Enylton de Sá Rego, mas também as crônicas que Machado escrevia em sua juventude, ou ainda, o poema herói-cômico O Almada, de 1879. Ver a crônica de 17 de julho de 1864, publicada no Diário do Rio de Janeiro.

[22] O que favorece a favorecendo a “dessacralização das verdades absolutas”. Ver SÁ REGO, Enylton. O Calundu e a Panacéia, p.51 e 165. Leia-se: “através do conhecimento e do uso da poética implícita na tradição luciânica, Machado de Assis produziu textos híbridos nos quais re-escreveu os mais importantes gêneros narrativos da tradição literária ocidental (Id., p.118). Ou: “Machado de Assis produz em seus romances textos híbridos que parodiam as convenções e tradições literárias dominantes em sua época, sobretudo as associadas com o romantismo e o naturalismo. Procurando transcender o que percebia como limitações históricas e estéticas destas duas correntes literárias típicas do século XIX, Machado produz em suas obras da segunda fase uma série de romances que podem ser lidos como uma re-escritura irônica dos grandes gêneros da literatura ocidental: nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, realiza uma re-escritura cômica do épico; em Quincas Borba, uma re-escritura trágica do cômico; e em Dom Casmurro, uma re-escritura da tragédia(p.165).

[23] Mas nem toda especiaria alheia calha ao gosto da crítica machadiana. Muita vez reconhece que tais especiarias derivam de plantas exóticas que não podem se aclimatar nos trópicos. Noutras palavras, há menos a mera absorção e reprodução acrítica dos modismos europeus do que uma perlaboração do dado: “aproveitando-se o que há de aproveitável”, como dizia a propósito do realismo. Gesto diferencial que traduz para um “gosto”, um código de valores e determinados critérios estéticos, a partir dos quais pôde ensaiar suas apreciações críticas. “Uma das plantas européias que dificilmente se têm aclimatado entre nós, é o folhetinista. Se é defeito de suas propriedades orgânicas, ou da incompatibilidade do clima, não o sei eu” (p.154). E mesmo os empréstimos possuem um limite: a imitação deliberada de concepções deslocadas, que pouco contribuem para a “independência do espírito nacional, tão preso a essas imitações, a esses arremedos, a esse suicídio de originalidade e iniciativa”(Obras Completas de Machado de Assis. Jackson, vol. 22, pp.32-36).

[24] O interesse acerca da atualidade machadiana pode incorporar outros fatores, tais como o citado por Erhard Engler, comentando a entrada do oriente no processo de desenvolvimento capitalista: "para nós, especialmente no Leste, ele entra com nova atualidade, porque também nós entramos nessa fase, digamos, de recapitalização. Os problemas que enfrentamos, nós os encontramos descritos de maneira genial na obra machadiana. Essa talvez seja uma das explicações da atualidade surpreendente de Machado de Assis; e não conheço outro escritor brasileiro, ou latino-americano, do século passado que seja tão atual quanto Machado de Assis. A nós, de Berlim Oriental, Machado de Assis (para falar da função da literatura) nos ajuda muito, com a reflexão que ele oferece, com a apresentação artística, literária, desse problema. Ajuda-nos nesse processo de reflexão e nos prepara para o processo doloroso que estamos enfrentando agora". Ver CHIAPINNI, Lígia e AGUIAR, Flávio Wolf. Literatura e História na América Latina. 1993, p.214. Com Afrânio Coutinho, se pode dizer que é pela "focalização na mirada crítica sobre as qualidades da obra literária o que lhe dá especifidade e perenidade"(op.cit. p.505). Ou ainda, atualidade que provém da riqueza e vitalidade de uma textualidade resistente ao tempo e à investida da crítica, à medida que se abre à uma pluralidade de vias de acesso, permitindo novas leituras, interpretações. Nas palavras de Antonio Candido, atualidade que "vem do encanto quase intemporal do seu estilo e desse universo oculto que sugere os abismos prezados pela literatura do século XX" e, mais adiante, pela "polivalência do verbo literário". CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. 1977, p. 18.